Um convite para fazer um “musical jovem” para estrear no verão de 2008 caiu como uma bomba na nossa cabeça. O que é “musical jovem”? Algo sintonizado com a música que toca no rádio hoje? Nas raves? Nós somos quarentões, gente!! Alguém aí sabe dizer o que é exatamente música jovem hoje em dia?
Oferecer um espetáculo com canções dos Beatles vai soar meio anacrônico e fora da proposta? Os Beatles começaram a fazer sucesso quando nós estávamos nascendo, década de 60!!! No entanto, o que é mais vivo e mais atual do que aquela juventude que não passa? Não envelhece um minuto. Do iê iê iê ao lisérgico, passando por acordes indianos e tantas rupturas estéticas, nada cheira a naftalina e não há hora da saudade com eles.
Pois assim foi. O verão chegou e nossa pequena “fantasia com as canções dos Beatles” se tornou o maior sucesso da temporada - seis sessões por semana era algo que o Rio não via há mais de 20 anos. Pois o verão foi embora, tivemos uma breve passagem pelo gigantesco Teatro Guaíra no Festival de Teatro de Curitiba com lotação esgotada, e emplacamos novamente o espetáculo com casas lotadas no Teatro do Leblon, chegando a completar um ano e um mês em cartaz. Um recorde que há algum tempo não se via no Rio de Janeiro em temporada contínua. Uma temporada de seis meses em São Paulo, e em seguida um convite inédito: apresentar o espetáculo num dos teatros mais importantes da Europa, a Maison de La Danse, na cidade de Lyon na França. A temporada inicial seria de 4 espetáculos, mas uma corrida antecipada às bilheterias fez com que os ingressos se esgotassem em apenas 3 dias, de modo que sessões extras foram abertas e rapidamente esgotadas novamente. O total de 7 espetáculos com todos os 1.200 lugares do teatro absolutamente lotados dava um frio na barriga antes da estreia. Éramos um grupo de artistas brasileiros, apresentando um musical totalmente cantado em inglês para uma platéia de franceses... Era inédito e, de certo modo, um pouco surreal.
Os Deuses do teatro foram generosos e saímos de Lyon com a alma lavada. Ovações de cerca de dez minutos ao fim de cada performance, críticas extremamamente elogiosas, além do convite de empresários que vinham de outros países para iniciarmos uma turnê pela Europa em 2010, convenceram-nos de que havia, no mínimo, uma boa comunicação do nosso trabalho com aquela platéia estrangeira.
É nosso musical mais simples... Um elenco de 11 cantores/atores, recurso cênico praticamente nenhum, nenhum texto, apenas as canções com suas letras originais em inglês. Acompanhamento luxuosamente simples de piano, violoncelo e alguma percussão.
Fio condutor? Há algum sim, mas que certamente não é convencional nem cronológico. Se querem uma historinha, imaginem Alice na toca do coelho... A chave que vai abrindo portas grandes para mundos pequenos, e vice-versa. Seria isso, cada quadro do espetáculo representa ou insinua uma parada da viajante: o sonho; a fuga; a descoberta; o amadurecimento; a volta.
Os Beatles eram fãs fervorosos de Lewis Carrol e de Alice no País das Maravilhas...
Alice fala o tempo todo de “tamanho” e de “labirintos”. De ritos de passagem. Alice quer entender o seu tamanho nesse mundo. Diante das coisas. O sentimento de ser mínimo em alguns momentos, gigante em outros. Temas que atravessam as canções dos Beatles de modo quase obsessivo. Talvez por isso mesmo a obra deles ainda seja tão jovem e tão genialmente simples. Pois o mundo mudou, mas esses questionamentos não. Isso sempre permanecerá jovem: eterno!
E para aqueles que não precisam ou não querem a historinha - são diamantes apenas, os mais bem lapidados que a música pop já produziu até hoje. Alguns aparecem aqui na íntegra, outros apenas trechos, frases, estrofes...
BEATLES NUM CÉU DE DIAMANTES está de volta ao Rio, com elenco renovado e contando com grandes nomes do nosso teatro musical interpretando o roteiro que continua o mesmo desde o dia da estreia há 3 anos. Após a temporada no espaço Rio Sul, o musical parte em uma turnê por diversas capitais brasileiras. Que os Deuses sejam generosos conosco novamente!
Agora, sobre a pergunta lá de cima: Se fomos jovens na escolha e na ideia? Certamente que não... Mas quem se importa?
Charles Möeller & Claudio Botelho